23.5.09



Vinicius de oliveira (foto), o garotinho de Central do Brasil, andava sumido. Carismático, mas limitado, ele até tentou fazer novela na época mas não deu muito certo.

Agora eis que Walter Salles faz uma caridade e o convida pra Linha de Passe. E é uma escolha feliz, porque o papel não exige muito. Basicamente, o que o rapaz faz é cara de sofrimento. Toda a frustração de anos de desemprego (do ator) passa para o personagem, um aspirante a jogador de futebol que vai envelhecendo sem conseguir vingar.

Mas quando Vinícius abre a boca, a vergonha alheia entra em cena. Sabendo disso ou não, os roteiristas lhe deram poucas falas.

Já Sandra Corveloni está bem, mas apenas, com o perdão do trocadilho, cumpre seu papel. Nada que mereça Cannes.

Se Salles topou dirigir o chatíssimo Água Negra pra sentir o que é filmar em Hollywood, parece que ele fez Linha de Passe pra entrar pra essa turma que anda filmando na periferia. Embora não trate diretamente de violência, como Cidade de Deus ou Tropa de Elite, há a famosa questão social e um roteiro modernoso, intercalando a vida dos membros da família.

O que é convincente são as cenas de futebol. Nunca tinha visto partidas tão bem emuladas, e o clássico (real) entre São Paulo e Corinthians rende belas imagens na abertura do filme. Mas no geral esse é o trabalho mais dispensável do diretor. Depois de Água Negra, claro.

15.5.09

Noel Rosa não conheceu Maria da Penha

Hoje estava ouvindo "Mulher indigesta" no ônibus e lembrei deste livro, que nunca li, mas me parece assaz interessante e aborda, entre outras reflexões, a forma como a mulher é retratada na história da canção brasileira.

A letra de Noel é de uma misoginia exemplar. Vejam que pérola:

Mas que mulher indigesta!(Indigesta!)
Merece um tijolo na testa
Essa mulher não namora
Também não deixa mais ninguém namorar
É um bom center-half pra marcar
Pois não deixa a linha chutar
E quando se manifesta
O que merece é entrar no açoite
Ela é mais indigesta do que prato
De salada de pepino à meia-noite
Essa mulher é ladina
Toma dinheiro, é até chantagista
Arrancou-me três dentes de platina
E foi logo vender no dentista

5.4.09

Musíca Deprê Brasileira

Dizia Vinícius que fazer samba não é contar piada. Sabemos que não é bem assim. Bezerra e Moreira da Silva estão, quer dizer, estavam aí pra provar.
Mas o ritmo que é logo associado a cerveja, feijoada e mulatas também tem seus momentos, digamos, blue.

Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor, pedia Nelson Cavaquinho.

A dor-de-cotovelo também foi cantada por Lupicínio Rodrigues:

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá-lo em um braço
Que nenhum pedaço do meu pode ser


Já em Paulinho da Viola (que por sinal gravou "Nervos de aço") é difícil achar uma letra que não fale em (des)ilusão, (des)engano e afins. É o caso da bela "Dança da solidão", que ficou mais conhecida na voz de Marisa Monte.
Uma que gosto muito é "Coisas do mundo, minha nêga". O eu-lírico é uma espécie de flaneur que interage com as pessoas e as situações por meio de sua viola e seus sambas, até que se depara com um homicídio:

Parei, olhei, fui-me embora
Ninguem compreenderia um samba naquela hora


Esse último verso é uma espécie de alfinetada em quem acredita que o samba só pode falar de alegria.
O compositor aqui-e-acolá gosta de associar música/instrumento a sentimento, como em "Guardei minha viola":

Minha viola vai pro fundo do baú
Não haverá mais ilusão


Não é à toa que Paulinho é da Viola.

Agora triste mesmo é "O mar", de Caymmi (Não confundir com "É doce morrer no mar", uma variação sobre o mesma tema). Com o violãozinho arrastado e a voz lamentosa do finado, é impossível não se sensibilizar com o caso do pescador jovem e bonito que saiu pra lida e não voltou, deixando a pobre viúva literalmente doida de saudades.
É bonito demais.

13.8.08

Por falar em China...

"Sou humano e nada do que é humano me é estranho", disse alguém. Histórias de vida nos cativam naturalmente. Balzac e a pequena costureira chinesa aborda dois momentos cruciais da história recente da China pela experiência dos protagonistas. Na juventude suas vidas são viradas de ponta-cabeça pela Revolução Cultural de Mao. Já o desenvolvimento acelerado dos últimos anos, metonimicamente mostrado no filme pela construção de uma represa, literalmente põe suas doces lembranças de juventude por água abaixo, junto com tradições e construções milenares e uma paisagem natural exuberante.

O mote da inundação de uma comunidade com o pretexto do progresso é o mesmo de Narradores de Javé, de Eliane Caffé, embora em "Balzac" ele seja secundário.

Dois adolescentes citadinos são obrigados a passarem uma temporada numa montanha remota para se "reeducarem", ou seja, livrarem-se de qualquer ranço pequeno-burguês e se tornarem camponeses esforçados e domesticados. Lavagem cerebral, pra ser mais claro. Mas Ma e Huo dão a sorte de conseguir alguns livros proibidos (romances franceses, Balzac principalmente) e os lêem para a costureirinha do título, o que acaba culminando num triângulo amoroso (sim, é um filme de amor). É impossível não lembrar de Fahrenheit 451.

A costureira é uma menina de personalidade forte, mais esperta do que os rapazes, apesar de nunca ter saído daquela montanha que provavelmente não sofria uma mudança significativa desde a invenção da pólvora. A introdução do mundo das letras em sua vida vai tão-somente confirmar nela sua independência.

O filme denuncia a ingenuidade e a ignorância e o seu aproveitamento pelo Maoísmo, que considerava reacionária a leitura de livros "burgueses". Ironicamente, o contato com Balzac muda de fato a vida da costureira (o nome verdadeiro da personagem não é revelado), o que não será necessariamente uma coisa boa pràqueles que a amam.

Um dos garotos promete ao outro que irá salvar sua nova amiga da ignorância. O que eles não sabiam é que isso libertá-la-ia de qualquer controle. Ela entende que é mais forte do que o Governo, a montanha, a família o amor. Ela vai ganhar o mundo (sim, é um filme feminista).

E não é só a costureira que tem a vida transformada pela dupla. Isolada e cheia de analfabetos, a aldeia incumbe Ma e Huo de lhe contarem as histórias dos filmes que eles conhecem. Assim, à noite formam-se platéias para ouvirem atentamente as narrações, que as levam às lágrimas. Isso confirma a posição de Antonio Candido, exposta em O Direito à Literatura: "A literatura aparece claramente como manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Não há povo e não há homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contato com alguma espécie de fabulação. Assim como todos sonham todas as noites, ninguém é capaz de passar as 24 horas do dia sem alguns momentos de entrega ao universo fabulado. (...) Ela (a criação ficcional ou poética) se manifesta desde o devaneio amoroso ou econômico no ônibus até a atenção fixada na novela de televisão ou na leitura seguida de um romance." Sim, é um filme político.

12.6.08

O sonho de ser Dostoievsky

(Atenção: meio spoiler)

O sonho de Cassandra é bastante parecido com Match Point. Além de se passar em Londres, é em "Crime e Castigo" mais uma vez que Woody Allen vai beber. Outras referências caras ao cineasta estão presentes, como a tragédia grega e os questionamentos filosóficos, religiosos e sobretudo morais.

A carga trágica da trama não está em fatores externos aos protagonistas, mas nasce de suas próprias consciências. A dupla em questão é vivida por Colin Farrell, ótimo como o irmão dilacerado por vários vícios e Ewan McGregor, competente como sempre (e que andava sumido), encarnando o lado cerebral e frio do par. Sua atuação lembra a de Jonathan Rhys Meyers, que faz o personagem principal de Match Point.

Diferentes no temperamento, os irmãos têm fraquezas também distintas. Um encontra-se com uma dívida de jogo, o outro deseja manter um padrão de vida que não corresponde à sua conta bancária.

Necessidades diferentes que levam a um crime em comum. Porém, na ressaca do delito o contraste entre os temperamentos dos dois volta à tona, o que leva à tragédia...

Pra finalizar, mais uma coincidência: em Match Point, o mote da história é comparado a uma partida de tênis. Aqui, mais uma vez há uma metáfora esportiva: o pôquer.

3.6.08

É a vida. E nem sempre é bonita.

Fui numa palestra com Marçal Aquino e ele citou "Onde os fracos não têm vez" entre os bons filmes que viu recentemamente. "O xerife acorda e enquanto toma café conta à mulher sobre o que sonhou à noite. O filme acaba assim porque a vida é assim."
Eu não tinha visto o filme ainda. Soube que meu cunhado baixou e lhe pedi uma cópia. Ele ficou surpreso ao saber que gostei. "É muito sem sal!"
Fiquei me perguntando por que um filme que tem chacinas, perseguições, psicopata e o escambau pode ser considerado sem sal. É a não-espetacularização. O filme é seco. Não tem música de suspense avisando que um ataque ou acidente se aproxima. Aliás, a batida que rola no final do filme, nas maõs de um John Woo ou um diretor de ação que goste de muito sal, seria filmada com trezentas câmeras, slow motion etc. e duraria minutos, com direito a closes de rostos horrorizados. Não é assim com os Coen. Como não é assim com Spike Jonze, por exemplo.
Já do final foi meu pai que reclamou. "Que porra é essa que o bandido não é preso e nem morre?" A vida é assim. E tem gente, muita gente, que não quer ver vida. A ficção com sal seria uma compensação pra uma vida insossa..?

Eu estranhei a falta de humor no filme, diferentemente do que vi em Fargo e O grande Lebowski, os outros dois que vi da dupla. Me lembou Almodóvar, que tem feito um cinema cada vez mais sisudo.

15.5.08

O Pagamento Final é um belo filme sobre o submundo novaiorquino dos anos 70. Uma fonte que Hollywood adora beber e que nas mãos de um Scorsese ou um De Palma (como neste caso) rende bons frutos.
O filme é bom por uma série de fatores, como os ângulos inusitados da câmera e os planos-seqüência, que De Palma executa como se regesse uma orquestra.
Mas talvez o que mais goste é o protagonista. Carlito Brigante é um ex-gângster que persegue o sonho de viver como um honesto locador de carros, mas percebe que se livrar do crime não será tão fácil.
Um clichê não fosse o personagem vivido por Al Pacino parecer uma pessoa de carne e osso, quando conta vantagem de sua condição de "Old School", se gabando das boas relações e do status que tivera. Ele não é o fora-da-lei aposentado que se mortifica pelo passado condenável. Ele quer mudar de vida apenas porque se cansou. Quarentão e apaixonado, não quer mais perder tempo na cadeia ou arriscar a pele à toda hora.
Quando em apuros, sentimos que ele não é inatingível. Vemos hesitação, suor e medo. É herói, mas com o cu na mão.